QUEIMA TUDO!

Enquanto o mundo sofria de expectativa esperando o final – patético – de Game of Thrones, George R. R. Martin fazia o que podia – menos, claro, publicar Os Ventos do Inverno – para manter o interesse pelo mundo mezzo medieval, mezzo fantástico que ele havia criado quando, em 1996, lançou A Guerra dos Tronos, o primeiro volume de As Crônicas de Gelo e Fogo

“Sim, Peter, eu também achei esta última temporada uma bost@!”

De tudo, merece destaque Fogo & Sangue, onde George começa a traçar a história da Casa Targaryen, indo desde a conquista dos Seis – sim, só seis – Reinos por Aegon e suas irmãs – e esposas! – Visenya e Rhaenys até a ascensão ao trono de Aegon III, a Desgraça dos Dragões, também conhecido como o Rei Arrasado

Aegon o Conquistador e suas irmãs Visenya e Rhaenys. Embora fosse comum o casamento entre irmãos para os descendentes da Valíria, não o era a bigamia. Fica subentendido ao longo da narrativa que Aegon casou com a mais velha por obrigação, mas desposou a mais jovem por amor. Todos os três cavalgavam dragões, ferramentas essenciais para a conquista de seis dos Sete Reinos.

Para quem acompanha o trabalho de Martin, não é surpresa a forma adotada por ele para narrar a história: há anos o escritor criou um, digamos, “avatar” para si dentro dos Sete Reinos, o Arquimeistre Gyldayn, um historiador. Aliás, vários trechos do livro foram tirados de outros textos publicados anteriormente, com George apenas “transcrevendo” as anotações de Gyldayn (eu sei que não é um artifício novo: Umberto Eco, por exemplo, fez uso dele em O Nome da Rosa). Segundo Double R, foi a forma encontrada para facilitar o trabalho: a unicidade de narrador – bem diverso do que vemos nos livros de As Crônicas de Gelo e Fogo, onde cada capítulo adota o ponto de vista de um determinado personagem, ainda que mantenha a narração em terceira pessoa – facilitou o trabalho e permitiu que este fosse bem mais produtivo (e rápido). 

” – Renda-se agora – começou Aegon – e você ainda poderá ser o senhor das Ilhas de Ferro. Renda-se agora, e seus filhos viverão para governar depois de você. Tenho oito mil homens em volta de suas muralhas.

– O que está em volta das minhas muralhas não me interessa – disse Harren. – Essas muralhas são fortes e grossas.
-Mas não tão altas que impeçam a entrada de dragões. Dragões voam.
-Construí com pedras – disse harren. – pedras não queimam.
a isso, aegon respondeu:
– ao pôr do sol, sua linhagem chegará ao fim.”

O livro não foi muito bem recebido por alguns “resenheiros” estrangeiros, que em grande parte o apontaram como “desnecessário” e “entediante”. Como fã da obra escrita (acho a série um horror, mesmo antes dela ultrapassar os livros publicados), sempre tive uma grande vontade de saber mais do passado recente dos Sete Reinos. E, claro, fico satisfeito por ser o próprio criador quem está narrando os fatos e não alguém que “juntou anotações e fragmentos deixados pelo autor”. Quanto a ser chato por adotar uma “narração pedagógica” dos fatos… Bom, eu adoro este tipo de narrativa, onde se usa métodos “didáticos” (linha do tempo contínua, com farto apontamento de datas, citação de fontes, poucos diálogos, etc.) para narrar algo fictício. Depois, temos que observar que a história dos Targaryen cobre 300 anos: se ela fosse contada através de “romances”, provavelmente seria em uns 40 volumes de 1.000 páginas cada um (e Martin só escreveria os três primeiros, se tanto). É como um romance histórico ao contrário! Ademais, o tom adotado está longe de ser enfadonho, pois o “escritor” cita fofocas e teorias as mais diversas sobre os fatos, além de, durante a narração da Dança dos Dragões, utilizar como fonte O Testemunho de Cogumelo, livro que transcreve a narrativa oral dos fatos feita por um anão que serviu como bobo nas cortes de Viserys I, Rhaenyra, Aegon II e Aegon III, com uma visão sempre cínica, indecente e engraçada dos fatos, embora na maior parte das vezes tenha a sua veracidade questionada. 

“O anão pretende nos convencer de que Rhaenyra mandou cortar imediatamente a língua da madrasta, em vez de fazer uma mera ameaça. O bobo insiste que foi apenas a intervenção da senhora Miséria que a refreou; Verme Branco propôs outro castigo, mais cruel. A esposa e a mãe do rei Aegon seriam acorrentadas e levadas até determinado bordel, onde seriam vendidas para qualquer homem que desejasse se satisfazer com elas. O preço era alto: um dragão de ouro pela rainha Alicent, três dragões pela rainha Helaena, que era mais jovem e bonita. No entanto, Cogumelo afirma que muitas pessoas na cidade acreditavam que isso era barato para manter relações carnais com uma rainha.”

Os elementos que agradam aos fãs de As Crônicas de Gelo e Fogo estão presentes. Sim, há um único narrador, mas a variedade de fontes – além de algumas observações de cunho pessoal por parte de Gyldayn – faz com que tenhamos diversos pontos de vista diferentes sendo apresentados sobre determinados fatos. O cuidado com a linha temporal e na apresentação de personagens permanece. Os bastidores políticos, com seus pactos secretos, traições, vinganças e complôs, são bem explorados. Também é explicada a origem de alguns cargos, como a Mão do Rei e a Guarda Real. E não falta violência: guerras ocupam boa parte das quase seiscentas páginas. Dentre estas, eu destaco as Guerras de Conquista, que terminaram com a ascensão de Aegon I, e, claro, A Dança dos Dragões, onde Targaryen lutou contra Targaryen pelo Trono de Ferro (aliás, a construção do paquidérmico assento – bem diferente daquela coisa mixuruca da TV – também está descrito), plantando as sementes da ruína da até então mais poderosa Casa de Westeros

Daemon Targaryen (figura central do conto O Príncipe de Westeros, do livro O Príncipe de Westeros e Outras Histórias) salta das costas de Caraxes, sobre seu sobrinho, Aemond, no dorso de Vhagar, num dos episódios cruciais da Dança dos Dragões. Repare que Vhagar possui uma sela e que Aemond está acorrentado a mesma. Ou você achava que se cavalgava dragões se segurando nas escamas dos mesmos, como Daenerys faz em Game of Thrones?

Outro ponto interessante e bem exposto é a relação entre a Casa Targaryen e a , representada pelos septões que defendem a crença nos Sete. O incesto é fartamente condenado por todos nos livros clássicos, mas era praticado pela família real que antecedeu a Casa Baratheon no poder. O livro se detém para tratar deste conflito e de como o mesmo foi resolvido. Vendo esta parte, percebe-se como a série de TV foi estúpida e superficial ao tratar a questão do conflito entre os representantes dos Sete e Cersei Lannister, principalmente, a meu ver, no tocante à reação do povo aos atos da rainha.

“Já passava da alvorada quando Rhaenyra Targaryen se levantou e desceu os degraus. ‘E, conforme o senhor seu marido, o príncipe Daemon, a acompanhava para fora do salão, era possível ver cortes nas pernas e na palma da mão esquerda de Sua Graça’, escreveu Eustace. ‘Gotas de sangue caíam ao chão por onde ela passava, e homens sábios trocaram olhares, embora ninguém se atrevesse a dizer a verdade em voz alta: o Trono de Ferro a rejeitara, e seus dias nele seriam breves.'”

E temos aqui os dragões, no auge de seu poder e selvageria. Vários parágrafos são dedicados a estas criaturas fantásticas, em alguns casos gigantescas. George nos entrega algumas informações valiosas:apenas quem tem sangue da antiga Valíria (terra de origem dos Targaryen) consegue montar um dragão, cada dragão tem apenas um cavaleiro, embora esse vínculo se rompa com a morte deste e um novo possa surgir, e, embora vivam bastante, estas criaturas não são imortais nem invulneráveis. 

Aegon o Conquistador sobre Balerion, o Terror Negro, o mais poderoso dragão a voar sobre Westeros.

Outro ponto interessante para fãs é que, aqui e acolá, tanto são expostos fatos que foram citados nos livros clássicos como, numa inversão, são descritos acontecimentos que remetem diretamente aos mesmos, como a origem dos ovos de dragão que Daenerys ganha de presente em A Guerra dos Tronos. Outro momento é quando um bastardo chamado Hugh Martelo, durante a Dança dos Dragões, se considera no direito de pretender o trono apoiado não apenas no fato de ter domado um dragão como em uma recém-criada profecia anônima que se espalhou pelos acampamentos de guerra na época: o martelo desceria sobre o dragão e o esmagaria, surgindo daí um novo rei. Décadas depois, na Batalha do Tridente, Robert Baratheon matou Rhaegar Targaryen com um golpe de martelo no seu peito, onde havia um dragão esculpido com rubis. A morte de Rhaegar praticamente selou a sorte dos Targaryen e garantiu a ascensão de Robert ao Trono de Ferro

Lorde Cregan Stark conversa com o jovem príncipe Aegon, explicando para ele que falsos amigos são mais perigosos que inimigos verdadeiros.

Também é bom destacar que George se esforça para manter um determinado equilíbrio. Se há momentos em que são narrados atos de honra, em outros são esmiuçadas ações de pura covardia, que incluem violência sexual e infanticídio. Enquanto aqui homens morrem em combate honrado, ali outros perecem nas mãos de traidores e assassinos contratados. E tanto as qualidades como os defeitos nunca são exclusividades de um gênero, raça ou mesmo idade: vemos exemplo de tudo que é bom e ruim em homens e mulheres, crianças, adultos e velhos, de todas as etnias que surgem. 

“Assim como os Lobos de Inverno, a maioria dos homens que havia marchado para o sul com lorde Cregan Stark não esperava voltar a ver a sua casa. As neves já estavam fundas no Gargalo, os ventos frios, aumentando; em fortalezas e castelos e vilarejos humildes por todo o Norte, os grandes e pequenos rezavam a seus deuses-árvores entalhados para que aquele inverno fosse curto. Os que tinham menos bocas para alimentar passavam melhor os dias sombrios, então era antigo o costume no Norte de que os homens mais velhos, os filhos mais jovens, os solteiros, os sem filhos, os sem-teto e os desesperados saíssem de casa quando a neve começasse a cair, para que seus parentes pudessem viver e ver outra primavera. A vitória era secundária para os homens daquelas tropas de inverno; eles marchavam em busca de glória, de aventura, de pilhagem e, mais do que tudo, de um final digno.”

A obra é muito bem ilustrada pelo artista de quadrinhos canadense Doug Wheatley, sendo que um pouco deste trabalho foi mostrado ao longo do post. A utilização de desenhos segue a tendência apresentada na edição de vinte anos da publicação original de A Guerra dos Tronos.

Maegor, o Cruel

Infelizmente, não há previsão para que George publique a segunda parte, indo até a derrocada de Aerys II, o Rei Louco, porém o escritor declarou era seu plano inicial só contar a história dos Targaryen depois de terminar As Crônicas de Gelo e Fogo, mas mudou de ideia quando viu a extensão do material, resolvendo dividi-lo. Sendo assim, provavelmente o restante deste só deverá vir a público depois de Os Ventos do Inverno ou – pior – após Um Sonho de Primavera!

Fogo & Sangue, de George R. R. Martin, com ilustrações de Doug Wheatley. Tradução de Leonardo Alves e Regiane Winarski. Título original: Fire and Blood. Editora Suma de Letras. 598 páginas.

 

 

<

p style=”text-align: justify”>