“Nossa, sério? O Jotinha vai falar mal do Morrison de novo?” Talvez…

Sempre me sinto muito à vontade para falar da obra do carequinha escocês porque, diferente de muito “fã” do cara, eu realmente a acompanho há muitos anos, tendo na minha coleção praticamente tudo o que saiu por aqui. 

“É issaí! Pra defender, assim como pra falar mal, tem que ler primeiro!”

Dito isto, aponto que Klaus, que pretende contar uma origem do Papai Noel, é uma das melhores coisas que li dele nos últimos tempos. Apesar de continuar tendo um ou outro apelo psicodélico desnecessário (a “magia” aqui é acessada através de uma… sopa curativa que leva a uma viagem colorida. Puro Morrison, no pior sentido), é uma história que segue uma estrutura narrativa linear e com uma preocupação genuína de tentar colocar no enredo justificativas para diversos elementos relacionados à figura clássica do Santa Claus, como o esquema de cores das vestimentas, os presentes, a chaminé, o carvão, o trenó… Tudo isso está lá, fruto de pesquisa junto à mitologia, principalmente nórdica e russa, e merece aplausos. 

E tem gente que critica o Papai Noel dizendo que ele explora os duendes: pô, no começo da carreira o sujeito fazia tudo sozinho!

Mas a trama sofre justamente por isto: preocupado em trabalhar com estas peças e extremamente focado no Klaus, o roteirista deixou de lado um melhor desenvolvimento tanto para os outros personagens como para a própria história. No começo da carreira dele, eu achava que o Morrison tinha como um diferencial a forma inteligente com que trabalhava os clichês. Não vi isto aqui. Está lá o cara sisudo e bondoso, que subiu na vida por méritos próprios, que é injustiçado e exilado (e que sobrevive apenas por ser salvo por um lobo que ele acudiu anteriormente), sendo afastado inclusive da mulher que amava (que, surpresa!, casou com o seu rival), e anos depois é forçado pelo próprio inimigo (que, claro, não é O vilão, que se revelará mais adiante) a intervir na situação vigente, levando obviamente a um confronto épico em que, no final, ele receberá o auxílio da mulher amada e do povo humilde, principalmente das crianças, que são as mais “puras” de coração. Está tudo dentro do esquema, sem comoção, sem espanto, sem sustos!

Aparência de Batman, sentimento de Superman.

O vilão, Lorde Magnus, é caricato até dizer chega. Parece que o Grant Morrison ficou preocupado que algum leitor desavisado pudesse, de alguma forma, simpatizar com o antagonista e fez questão de dotá-lo  com os piores atributos e atitudes possíveis! O cara é péssimo marido, pai e governante. É pedante e mentiroso. Visualmente desagradável (rosto fino, boca grande com lábios finos, cabelo ensebado, pálido…). Subserviente e dissimulado com seu mestre. Claramente além de qualquer redenção ou sequer uma mera possibilidade de evolução moral. Em suma, um sujeito que é mau porque é, cujas motivações não convencem e, aparentemente, não importam: ele quer poder e pronto. Me lembrou muito – na falta de motivação crível para suas inclinações perversas – o John Sublime, que o Grant criou durante a sua passagem nos X-Men

Um vilão que baba enquanto grita. Provoca o exílio do mocinho e casa com a mulher por quem o pobre Klaus estava enamorado. Escraviza os pais e confisca os brinquedos das crianças para poder “roubar a alegria”. Velhos, nem o Todd Phillips e o Joaquin Phoenix conseguiriam enganar a plateia pra ficar com pena do rapaz dodói aqui.

Aproveitando que apontei similaridades entre personagens trabalhados pelo escritor (o que é uma das minhas maiores queixas em relação ao seus trabalhos no século XXI: acho tudo muito repetitivo, tanto na criação de tipos como no uso de elementos narrativos), não há como ignorar que o Klaus é o Batman do Morrison! Sério, focado, forte, cheio de preparo habilidades, órfão… No lugar do dinheiro, magia (que parece surgir do nada na trama, fica em segundo plano por algum tempo e aí toma conta do palco do meio pro fim). E o Dan Mora ainda desenhou o cara com as fuças do Bruce Wayne!

“Eu sou a vingança!”

Ah, agora chegou o momento de rasgar elogios de verdade! Dan Mora manda muito bem. Seus traços e suas cores dão conta do recado e, em alguns momentos, compensam os problemas apontados acima. Sua narrativa é bem feita, sua construção de cenários (tanto a urbana como, principalmente, a selvagem) é primorosa e seu design de criaturas é destacado. Ah, e ele sabe desenhar crianças, o que é um problema pra maioria dos artistas de hqs, que parecem sempre fazer adultos em miniatura quando precisam apresentar personagens infantis.

 

Klaus é originalmente uma mini de sete partes lançada entre 2015 e 2016. Desde 2016, ao fim de cada ano, os autores lançam uma  edição especial com o personagem, explorando outros aspectos mitológicos e outras épocas temporais. A Devir lançou em uma edição encadernada com capa dura, em duas versões: uma com a “capa branca”, outra com a “capa escura”. Nada a dizer do produto: encadernação sem defeitos e papel de qualidade. Mas não há extras, exceto capas originais, algumas capas alternativas e uma pequena biografia dos autores. O preço, porém, é inadmissível. 

A versão com a capa alternativa, chamada em alguns sites de “capa branca”.

Veredito? Bom quadrinho, sem as firulas estilísticas do Morrison (que pra mim só servem para esconder o pouco ou nenhum conteúdo original utilizado pelo escritor em algumas das suas histórias), com final previsível e, por isso mesmo, um tanto quanto decepcionante, que me deu preguiça em alguns momentos (muito por conta da fraqueza do escritor em construir diálogos interessantes), apesar da arte do Dan Mora. Vale a leitura? Sim, se você não estiver esperando muito (não vá com vontade de saber o que o Papai Noel faz nos outros 364 dias do ano: eu fiquei frustrado com a resposta). Vale o preço cobrado? Com certeza, não. 

Klaus. Roteiro de Grant Morrison. Arte de Dan Mora. Editora original: Boom! Studios. Editora no Brasil: Devir. 208 páginas. R$ 96,00.