Falaram tanto, mas tanto dessa HQ que resolvi ler. E…

Óia, e não é que é bom, bem legal.

Chuchus, eu não sou lá muito fã de Mark Millar. Sim, gosto bastante dos dois primeiros volumes d’Os Supremos mas no geral acho a grande maioria das coisas que ele escreve OK e só. Não sei porque mas ele sempre me soou como uma cópia meia boca do Garth Ennis. Enfim, já faz um tempo eu vejo pela internet bastante críticas positivas sobre a série O Legado De Júpiter, criada por ele e pelo fantástico Frank Quitely. Aí, naquela protelação marota de trabalho inerente à todo brasileiro, importei os dois volumes da HQ e trouxe minha opinião sem conteúdo ou fundamento para sangrar vossos óleos. Ah sim, tem spoilers de leve.

O Legado De Júpiter é mais uma daquelas séries que vem com o propósito de reinventar ou desconstruir o mito do super herói e, obviamente, do maior de todos, Superman. A série se inicia com Sheldon Sampson e seus amigos em 1932 em busca de uma ilha mítica que supostamente atrai Sheldon através de sonhos e sussurros. O mesmo é um aristocrata quebrado que perdeu tudo com a quebra da bolsa de valores americana em 1929 e se encontra extremamente desiludido com o rumo que seu país se encontra e afirma que essa ilha que o chama é a salvação para a América.

Por mais absurdo que isso pareça, a tal ilha realmente existe e concede a turma poderes sobre humanos, os tornando os genitores de uma raça de super seres com Sheldon sendo o Superman da história, aqui conhecido como Utópico. Pois bem, vida que segue e a série da um salto no tempo nos levando a 2013. Utópico e sua turma continuam na ativa porém há uma clara discordância entre ele e seu irmão, Walter, sobre a eficiência dos heróis em tornar a América um país melhor. Utópico defende com unhas e dentes, de forma autoritária, que as decisões sobre o futuro do país devem ser tomadas pelos governantes eleitos pelo povo ao passo que Walter argumenta que os heróis podem e devem ser mais ativos nas escolhas que ditam o futuro da nação. Paralelo a isso a série nos apresenta a geração de filhos desses primeiro heróis, um bando de super seres mimados, inúteis e arrogantes, em especial Brandon e Chloe, filhos de Sheldon.

A tensão entre Utópico e Walter chega a níveis insuportáveis fazendo Walter conspirar contra o irmão colocando Brandon na jogada, o único super ser que pode fazer frente ao pai. O pau come solto e moçada, todo mundo para trás, Walter usa de sua influência, angaria os xovéns e arma contra Sheldon e sua esposa. Os dois acabam mortos, Chloe consegue fugir com a ajuda de seu namorado, Hutch e a série da outro salto temporal, agora para 2022. Brandon se tornou uma marionete nas mãos de Walter e é o “líder” de uma América com o pezinho no fascismo e Chloe, Hutch e o filho Jason vivem de forma clandestina na Austrália. Por fim, o primeiro volume termina com os três sendo desmascarados como os supers que são (menos o Hutch que é filho de um super ser mas só possui uma traquitana de teleporte construída pelo pai) e mesmo com a resistência de Chloe, esposo e filho a convencem a buscar uma forma de lutar contra Walter e Brandon e acabar com a ditadura mascarada de progresso na América para trazer de volta os ideais heroicos e democráticos defendidos pelo finado Sheldon.

O segundo volume da série é mais tiro, porrada e bomba com pé na porta e soco na cara. Hutch, Chloe e Jason são descobertos ao fim do primeiro e saem em busca de outros seres para fazerem frente à Walter, Brandon e seu exército. A grande maioria se encontra presa no SuperMax, a prisão para supers criada por eles. Por conta disso, eles partem em busca do pai de Hutch, um vilão da época de Sheldon que havia sido dado como morto e é extremamente inteligente, chamado Skyfox. O bagulho é meio frenético e as cinco edições são ainda mais dinâmicas que as primeira. Ao fim de tudo a série se encerra com a derrocada de Brandon (que acaba preso depois de um cacete homérico dado pela irmã), a morte de Walter e o sucesso da resistência.

Fazendo um balanço sobre a série, ela funciona muito bem em todos os sentidos. Millar tem um roteiro extremamente agradável e de fácil leitura (é tranquilo de ler as dez edições em menos de 40 minutos), muito bem pontuado entre as cenas de ação frenética e momentos mais lentos e que em 2019 ainda é muito relevante, principalmente ao se traçar um paralelo com a América da história e os EUA de Trump. Desnecessário dizer o quão contundente é a geração de filhos dos heróis clássicos frente à própria juventude de hoje.

Sobre os desenhos, eu sei que tem gente que não gosta dos traços do Quitely. Já vi críticas dizendo que ele desenha todas pessoas meio feias e / ou velhas e sei que cada um tem seu gosto que nem o fiofó e que opiniões devem ser respeitadas mas, na boa, se você não gosta do traço do cara, você é dodói da cabeça #prontofalei. Não há absolutamente nada que desabone as banda desenha dessa HQ e, aliado à Peter Doherty e Sunny Gho nas cores, gente, que coisa mais maravilinda.

Até entendo quem não curte o traço do Quitely com imagens como essa.

Entre mortos e feridos, O Legado de Júpiter é uma HQ deveras bacana. Há alguns pontos onde o roteiro poderia ser um pouco mais elaborado principalmente quando Skyfox entra em cena e a coisa toda a respeito dele fica um pouco jogada mas no geral são poucos os momentos que você se incomoda com isso. Os diálogos são excelentes (e nisso eu tenho que dar o braço a torcer pro Mark Millar), o andamento da história no timming perfeito e os desenhos, puta merda Frank Quitely, seu ridículo.

Tchau.