I can’t love, shot full of holes
Don’t feel nothing, I just feel cold
Don’t feel nothing, just old scars
Toughening up around my heart

No último fim de semana, Enxutos e Enxutas, fui ao cinema depois de cerca de três anos sem fazer tal programa. Vingadores? Hellboy? Aladdin? Não, fui ver o filme do Elton John!

Taron Egerton vive – e dá voz, de verdade – a Elton John. O filme é o resultado de vinte anos de tentativa do astro pop e do seu marido, David Furnish (um dos produtores) para levar a história de Elton para as grandes telas. Curiosamente, o primeiro estúdio interessado no projeto foi a Disney! Também esteve nas mãos da Focus, mas o próprio cantor resolveu ir adiante, pois não aceitava os cortes propostos para “suavizar” a história. Neste meio tempo, Justin Timberlake e Tom Hardy (sim, o Venom) estiveram muito perto de representar Elton.

Eu estava com muita vontade de ver. Claro, admirar uma boa parte da obra do pianista inglês ajuda. E ser um fã daqueles “das antigas” é outro ponto à favor. Porque o aficionado do passado não apenas curtia a obra em si, como queria saber da vida do compositor, do intérprete, de todos os caras e garotas que fizeram aquelas músicas, livros e filmes que você estava curtindo. E, na época em que a internet era apenas uma arma que os americanos estavam desenvolvendo para dominar – ou destruir – o mundo, a dificuldade de encontrar material sobre a vida dos artistas estrangeiros ajudava a alimentar esta mania. Se você, por exemplo, era fã de cinema e colecionou a revista SET, ou fã de música e lia a revista BIZZ, sabe bem do que eu estou falando!

Em 2017, Matthew Vaughn, na época trabalhando na edição de Kingsman – O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle, 2017), ficou sabendo do projeto através de Taron Egerton, que se candidatara ao papel. Vaughn assumiu o posto de produtor (exigindo apenas que Egerton ganhasse o trabalho) e contratou Dexter Fletcher para a direção. Também conseguiu financiamento da Paramount, que ficou com o direitos de distribuição. As filmagens começaram em agosto de 2018.

Mas, retomando, o que me arrebatou mesmo foi o primeiro trailer. Ali percebi duas coisas: fora com o tom melancólico de algumas cinebiografias, como Ray (idem, 2004), e viva um projeto que, mais do que se propor à contar a vida do astro, busca montar um bom filme com base na história deste!

https://www.youtube.com/watch?v=6AV1AJi7t7E

E é justamente aí que o filme me ganhou: boa parte da obra tem como pano de fundo a narração de Elton John (Taron Egerton, mandando muito bem), vestido de demônio luxuoso, diante de um grupo de auto-ajuda. Não faltam comentários sarcásticos e observações espirituosas. O filme foca na infância e nos loucos anos 70, onde Elton John estourou, conquistando a famosa e cobiçada dobradinha fama-e-fortuna, e, paralelamente, afundando em um mar de drogas, álcool e sexo. 

Taron Egerton e Richard Madden, que vive o namorado de Elton, John Reid. Foi noticiado que a Paramount teria pressionado Fletcher para que ele suavizasse a cena de sexo entre os dois atores, o que foi desmentido. Na Rússia, porém, o filme tem cinco minutos a menos, justamente por conta de terem sido retiradas todos os momentos que fazem referência à homossexualidade e às drogas. Tanto Elton John como a Paramount protestaram.

Mas se você pensa que vai ver um novo Bohemian Rhapsody (idem, 2018) – detalhe: os dois filmes tem o mesmo diretor: Dexter Fletcher – para poder sair da sessão criticando os “erros” em relação à história “real”, talvez seja bom saber que, como eu disse acima, esta não é uma biografia, mas um filme que usa a vida de Elton John como pano de fundo para contar uma história envolvente e com todos aqueles elementos que a platéia em geral adora. Como? Fugindo dos meio-termos e, podemos dizer, exacerbando qualidades e defeitos de cada personagem. Como Stanley (Steven Mackintosh), o pai de Elton, não amá-lo, ou John Reid (Richard Madden, o Robb Stark de Game of Thrones), namorado e empresário do cantor, ser um grande FDP (com letras maiúsculas): quem pesquisou a vida do cantor sabe que há um fundo de verdade nisso, mas que o filme exagera situações e atitudes, visando aumentar o impacto da mensagem que deixa no final. Mas não pense que, por outro lado, os problemas do astro pop com drogas e bebida são mascarados! Muito pelo contrário!

A reconstrução de figurinos clássicos é perfeita, assim como a montagem de cenas que mostram Elton John nos pequenos e grandes palcos.

Os números musicais são excelentes e estão bem distribuídos. E não se limitam a Elton sobre o palco! O repertório dele (inclusive canções mais recentes) é utilizado para contar a história e, assim, manter o clima mais ameno diante de momentos que, em um filme ruim, seriam pesados. Um bom exemplo: há uma cena na cozinha em que vemos a péssima situação familiar vivida por Elton criança (Kit Connor) e, quando o clima fica opressivo, ele começa a cantar I Want Love (canção de 2001, aquela que o Robert Downey Jr. dubla no clipe), sendo acompanhado por seu pai, sua mãe (Bryce Dallas Howard) e sua avó (Gemma Jones). Destacando que todos os atores cantam realmente. De forma simples, se foge do dramalhão e, de um momento para outro, cria-se um momento belo e que até consegue que o expectador sinta sua antipatia pelos pais diminuir um pouco. Outro muito bacana você pode conferir a seguir:

Aproveitando que tocamos no nome de mais atores, o resto do elenco também está muito bem. Destaco os trabalhos de Jamie Bell – o Coisa do último Quarteto Fantástico – como o amigo e letrista de Elton, Bernie Taupin, e de Stephen Graham, hilário como o empresário Dick James

Taron Egerton e Bryce Dallas Howard, que escureceu os cabelos, ganhou alguns quilos e não perdeu um centímetro cúbico de charme e beleza para viver a mãe do cantor.

Enfim, um filme que vale cada minuto, uma montagem maravilhosa que entrega um ritmo agradável, um elenco que atua sem vaidade e um final que faz com que você saia da poltrona se sentindo melhor com o mundo. E isso… ainda tem seu valor. 

Rocketman (idem, 2019). Direção de Dexter Fletcher. Roteiro de Lee Hall. Produzido por Matthew Vaughn, David Furnish, Adam Bohling e David Reid. Com Taron Egerton, Jamie Bell, Bryce Dallas Howard, Richard Madden, Stephen Graham e Gemma Jones, entre outros. Paramount.

 

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