Resenha Enxuta: Ted Bundy – Um Estranho ao Meu Lado, de Ann Rule

Resenha Enxuta: Ted Bundy – Um Estranho ao Meu Lado, de Ann  Rule

Repugnante.

O Cavaleiro das Trevas, a maior obra de Frank Miller, não apenas se ocupa de ser uma grande história do Batman, como também faz severas críticas à cultura do espetáculo, que na época (1986) tinha como seu principal representante a televisão. Uma dessas avaliações depreciativas se dá em duas páginas do segundo volume (O Morcego Triunfa), onde vemos três incidentes serem narrados: um múltiplo assassinato em um cinema pornô, protagonizado por uma pessoa claramente desequilibrada, a morte de um assassino vestido de Batman e a intervenção de um dono de loja, que salva uma mulher de um assaltante. Os dois primeiros casos tem cobertura da TV, que ligam os incidentes ao Homem-Morcego (o primeiro, especificamente, de maneira leviana), mas o terceiro não importou, já que “ninguém se machucou o suficiente” para despertar o interesse da mídia. 

Depois de algum tempo, concluiu que as intensas investidas de Ted no final de 1973 foram planejadas de maneira deliberada, que havia esperado todos aqueles anos para estar na posição em que ela se apaixonasse por ele apenas para poder largá-la, rejeitá-la, assim como ela o tinha rejeitado.

Neste ano, se desenrolava um drama nos noticiários da televisão norte-americana. Ted Bundy, o mais notório serial killer da América, lutava contra a execução de suas penas de morte, decretadas em julho de 1979 e em janeiro de 1980. Por quase dez anos, e a um custo estimado de seis milhões de dólares, gastos pelo estado da Flórida nos recursos apresentados por Bundy, o criminoso conseguiu fugir da cadeira elétrica, mesmo tendo a sua execução autorizada pelo governador do estado por três vezes, sem sucesso. Enquanto isso, fascinava o imaginário popular, principalmente de mulheres, transmitindo a imagem de um homem inteligente, bonito e bem articulado, com um lado sombrio, que o levava a praticar sequestro, estupro, lesão corporal de natureza extrema, assassinato, ocultação de cadáver e necrofilia.

Ted Bundy (1946-1989). Considerado bonito e carismático, tinha como alvos preferenciais garotas jovens, bonitas, inteligentes e de boa família. Costumava atrair suas vítimas até o seu carro (um fusca, sem o banco do passageiro) se fazendo passar por alguém com capacidade parcial e temporariamente limitada (normalmente usando gesso e muletas). Gostava de agredir suas vítimas com golpes na cabeça. Também praticava necrofilia e chegou a decepar algumas mulheres apenas para poder ficar algum tempo com suas cabeças. Sua última vítima foi uma criança de doze anos. Depois de alegar inocência por anos, pediu para confessar poucas horas antes de ser executado. Acredita-se que matou muito mais do que as trinta e tantas mulheres que confessou. Certa vez, ao ser interrogado pela polícia, disse que o suposto número de vítimas então atribuídas a ele estaria errado “por um dígito”.

Publicado originalmente em 1980, Ted Bundy – Um Estranho ao Meu Lado é dito por muitos especialistas e fãs do gênero como a melhor obra sobre o famoso assassino em massa (o termo “assassino em série” surgiria depois). Como este é o primeiro livro do gênero que eu leio – a não ser que você considere Do Inferno, de Alan Moore e Eddie Campbell, e Meu Amigo Dahmer , de Derf Backderf, como da categoria -, me faltam referências para comentar a obra dentro do true crime. Por isso, me limitarei a analisá-la de maneira individual. 

Parece irônico que Ted Bundy esteja em condição física tão soberba. Ele agora é vegetariano, visto que os nutricionistas da Penitenciária Estadual da Flórida não atendem pedidos individuais, foi necessário que mudasse outra vez as afiliações religiosas. Nascido e criado como metodista, convertido ao mormonismo pouco antes da primeira prisão, agora é hindu confesso. Admite que essa conversão é pragmática. Como hindu, ele tem o direito legal de receber dieta vegetariana e de peixe.

A autora, a ex-policial e repórter Ann Rule, iniciou sua carreira literária justamente ao aceitar uma encomenda para escrever sobre um assassino que vinha aterrorizando as mulheres do estado de Washington nos anos 1970. Uma das pessoas com quem ela comentou a sua grande chance foi um rapaz com quem travou amizade em 1971, quando trabalharam juntos como voluntários em em um centro de combate ao suicídio: Theodore Robert Bundy. Um golpe do destino que ajudou a escritora a alcançar a fama e consequente segurança financeira, e deu aos leitores aquele algo a mais que faz com que o texto não caia na armadilha da monotonia de uma prosa estéril, que estaria melhor localizada na seção policial de qualquer jornal do mundo.

Ann Rule. Por anos, ela ficou em dúvida se seu amigo Bundy realmente era um assassino.

Não há como negar a simpatia que a autora tem (no texto original, já que há capítulos adicionados posteriormente, ao longo das diversas republicações, em que a opinião dela já não é a mesma) pelo sujeito, o que não a impede de fazer uma análise impiedosa de seu caráter, mesmo durante a infância e a adolescência. Ela desmonta a lenda de que Ted seria alguém brilhante, com intelecto anormal. Ele, pelo texto, é antes de mais nada um potencial desperdiçado. Boa aparência, lábia razoável e certa inteligência, mas indeciso quanto ao futuro, em boa parte por não ter disposição para se esforçar em busca de seus objetivos… Digamos, objetivos legalmente aceitos. Sim, porque o mesmo homem que não sentia ânimo para sair de casa e procurar um emprego que poderia tê-lo ajudado a manter um disfarce que o colocaria à salvo da polícia que o procurava após sua segunda fuga da prisão no Colorado, era o mesmo que, num espaço exíguo de tempo, atacou cinco mulheres, matando duas delas. 

Ted não estava destinado a ser um presidiário popular. Não tanto por causa dos crimes pelos quais fora condenado, mas por conta da atitude. Ted Bundy era uma estrela, e isso incomodava tanto os guardas como seus colegas detentos.

A descrição dos fatos é feita em boa prosa, não se tornando enfadonha ou incômoda demais. Rule fez uso de um vasto material de pesquisa, mas não se furtou a preencher algumas lacunas dos acontecimentos com suas próprias especulações de como as coisas se deram, principalmente quando trata da fuga para a Flórida (detalhe que a escritora não deixa passar: o “inteligente” Bundy, ao fugir, escolheu ir para um estado que não apenas aplica a pena de morte, como a faz com entusiasmo). Ao chegar nos julgamentos, ela manda bem, trazendo à luz como Bundy, longe de ser um sujeito realmente esperto, ferra diversas vezes com suas próprias chances, por se achar melhor do que os próprios advogados.  

Karen tinha a mandíbula e os dentes quebrados, possíveis fraturas cranianas e diversos cortes. Os paramédicos se esforçaram para desobstruir as vias aéreas das duas garotas feridas para evitar que morressem engasgadas no próprio sangue.

O problema do texto é a personagem secundária: a própria escritora. Quando Ann começa a falar de si, do que estava fazendo ou deixando de fazer à época, o texto fica desinteressante. Outros momentos fracos é quando ela tanta fazer análises psicológicas de Ted. Sua troca de correspondência com Bundy também deixa a desejar, em boa parte por conta do estilo floreado adotado pelo assassino (seus “poemas” são ruins de doer a alma). Vale apenas para que o leitor perceba até onde chegava a egolatria do mesmo. 

No passado, embora nunca estivesse em condições de (ou realmente desejado) expor a alma, sempre havia alguém com quem conversar, mesmo que isso significasse a retórica do tribunal ou as piadas com os carcereiros. E sempre havia cartas para escrever. Agora, não havia ninguém. Tinha que desfrutar do que realizara dentro da própria cabeça, e a solidão arrancou grande parte da diversão. Theodore Robert Bundy tinha conquistado sua cota de fama no oeste. Na Flórida, não era ninguém.

A edição da Darkside tem capa dura e encadernação de bom acabamento e o sempre bem vindo papel amarelado. Infelizmente, peca pela falta de legendas nas imagens: perdi algum tempo pesquisando-as na internet para poder situá-las e descobrir alguns dos personagens que aparecem nas mesmas. O pior é que muitas destas figuras são descritas no texto, como Ted Bundy transtornado no julgamento, ao ouvir que fora condenado à pena de morte. Mesmo os créditos das fotos só encontrei depois de muito olhar: estão na antepenúltima página, depois da biografia da autora, em letra muito pequena. 

O julgamento de Bundy tinha sido marcado pela mediocridade ao longo de toda a trajetória. Apenas o próprio juiz era de alta classe. Se Ted tivesse trabalhado com os advogados em vez de tentar acabar com eles, certamente teria conseguido a defesa adequada. 

De toda forma, é um livro que vale o tempo, se você for fã ou curioso de true crime. Se gostar de julgamentos, também é uma obra indicada. E acho que há uma chance de você não conseguir olhar para os estranhos que passam na rua da mesma forma, imaginando o que escondem por trás de suas fachadas públicas. 

Ted Bundy – Um Estranho ao Meu Lado, de Ann Rule. Darkside, 520 páginas, R$ 69,90.

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JJota

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