O que? Scott Snyder está nesta coleção?

A Panini tem trazido ao Brasil uma coleção que tem feito sucesso nos EUA: Batman Noir, nada mais que a reedição de histórias clássicas do Homem-Morcego, agora em preto e branco. 

Diferente de outros títulos da série, a edição dedicada ao argentino Eduardo Risso faz uma coletânea de histórias do Homem-Morcego ilustradas por ele, não se focando em uma única história.

Já chegaram às nossas praias seis destas edições: O Cavaleiro das Trevas (Frank Miller, com Klaus Janson), Eduardo Risso (com textos de Brian Azzarello, inclui o arco Cidade Castigada, entre outras), O Longo Dia das Bruxas e Vitória Sombria (da dupla Jeph Loeb e Tim Sale), Silêncio (Loeb de novo, agora com a arte de Jim Lee) e A Corte das Corujas (de Scott Snyder e Greg Capullo). Não se sabe se outras histórias já publicadas pelos norte-americanos virão pra cá, como A Piada Mortal e Gotham by Gaslight

E não esqueçam este clássico incompreendido que, por sinal, se beneficiou, e muito, da retirada das cores.

Bom, como um verme maldito bom colecionador, eu venho comprando. Até agora, já li a edição do Risso, do Frank Miller e as duas da dupla Loeb/Sale. Mas já posso entregar aos amigos Enxutos minha avaliação do projeto até aqui.

A continuação de O Longo Dia das Bruxas é, até aqui, o título mais caro da coleção.

Em primeiro lugar, não confundam estas histórias com a série Batman Preto e Branco, que foi publicada por aqui em edições especiais e minisséries , tanto pela Abril como pela Mythos e pela Panini. Estes são contos curtos, publicados numa coletânea chamada Batman Black and White, e desde o início concebidas para serem produzidas sem colorização. Batman Noir, como já expliquei, são histórias originalmente coloridas que agora são republicadas sem as cores.

Arte de Simon Bisley para uma edição de Batman Black and White.

Aproveitando o gancho, vem minha primeira má impressão. Quando se está ilustrando um quadrinho que se sabe que será publicado sem colorização, desenhista e arte-finalista se esmeram em alguns detalhes, pois eles sabem que não terão a ajuda das cores para, por exemplo, deixar claro para o leitor que a história se passa à noite ou que estamos em um ambiente iluminado indiretamente. São pequenos detalhes que fazem a diferença, mas que podem ser colocados de lado quando se sabe que o colorista chegará depois para ter um papel fundamental na passagem do clima proposto e, assim, ajudar na narrativa (ainda que, na maioria dos casos, este seja um dos trabalhos menos valorizados, ao lado do de letrista). Principalmente nos dias de hoje, em que este profissional ainda tem ao alcance a tecnologia atual, que lhe permite acrescentar, por exemplo, efeitos de iluminação que poucos profissionais nos anos 80 conseguiam fazer com os recursos disponíveis na época. 

Sendo assim, a simples retirada das cores faz com que se perca uma parte do tripé artístico, o que traz muitos quadros com áreas “vazias”, onde tanto branco chega a incomodar. Em alguns momentos, não se pode afirmar com certeza se o Batman está em um ambiente interno ou externo, bem ou mal iluminado (e olha que eu tenho a vantagem de conhecer as histórias originais). Uma solução seria a DC ter feito pequenos ajustes na arte original, como a aplicação de tons de cinza (do tipo que Cliff Rathburn faz nos desenhos de Charlie Adlard na série The Walking Dead). Mas, pelo visto, era intenção da editora apresentar a arte “crua” e isto, infelizmente, atrapalha a narrativa em alguns momentos. 

Para efeito de comparação, aqui temos uma página de O Cavaleiro das Trevas, com e sem o trabalho extraordinário de Lynn Varley.

Outro ponto importante é que a Panini está lançando algumas histórias que tiveram republicações relativamente recentes no Brasil em seu formato original (colorido). Creio que, por exemplo, O Cavaleiro das Trevas seria melhor recepcionado se fosse dado um tempo maior, visto que já ganhou sete (!!!) republicações pela editora, a última já em meados de 2018. Neste mesmo ano também tivemos a última republicação de Silêncio e Corte das Corujas. Mesmo as histórias de Jeph Loeb e Tim Sale haviam ganho suas últimas edições em 2015, não sendo muito difíceis de serem encontradas por aí.  

Silêncio foi republicada em 2018.

Falando no preço… Bom, salgados. Vão de R$ 70,00 para O Cavaleiro das Trevas (lembrando que aqui temos apenas a história original de 1986, não trazendo a continuação de 2001, como nas republicações de luxo coloridas da Panini) até R$ 121,00 para Vitória Sombria. A aposta em um papel mais espesso, que reflete pouca luz, é acertada, claro, pois quem está acostumado sabe como é doloroso ler uma arte preto e branco num papel mais fino e brilhante. No entanto, isto deve ter contribuído para um considerável aumento nos custos, elevando o preço final do produto. Na comparação com as edições coloridas, as Noir vão perder: no site da Panini, por exemplo, você encontra as duas edições de Silêncio, a Noir e a original, ambas com capa dura, exatamente pelo mesmo preço, R$ 99,00. 

Página de O Longo Dia das Bruxas. Uma cena noturna, que perde um pouco sem as cores.

E já que falei das edições coloridas, me obrigo a dizer que, na dúvida, o leitor que não tiver as histórias citadas deve optar por estas. Apesar de encontrarmos aqui grandes desenhistas e arte-finalistas produzindo algumas de suas melhores páginas em toda a carreira, eu acho que os coloristas não só dão uma contribuição vital ao processo, como nas histórias aqui apresentadas vamos encontrar alguns dos trabalhos mais bem avaliados de suas trajetórias, notadamente Lynn Varley (O Cavaleiro das Trevas) e Gregory Wright (O Longo Dias das Bruxas e Vitória Sombria). 

Silêncio, arte de Jim Lee, com Scott Williams.

As capas também não me agradam. Na maioria, reproduções de algum quadro do miolo, sem nenhuma ilustração de fundo, apenas aquele grande fundo branco. Mesmo a edição de Risso, que tem fundo preto, traz uma arte bem pouco inspirada. Sei que estão usando as mesmas capas dos originais norte-americanos, mas… A falta de extras já era esperado. No máximo, capas originais, também descoloridas. Mesmo o texto em que Frank Miller, se fazendo passar por Jimmy Olsen, enaltece o Batman é o mesmo que encontramos em qualquer uma das “edições definitivas” d’O Cavaleiro das Trevas

Frank Miller e Klaus Janson, no auge. E Lynn Varley ainda faz falta!

Desta forma, digo que as edições Noir valem mais pela curiosidade de ver aquele quadrinho famoso sem as cores, ainda que esta seja saciada com uma dose de decepção, justamente por em alguns momentos faltar aquele clima sombrio. De toda forma, se você já tiver as edições originais, curtir desenhar ou apenas apreciar a arte “crua” e, obviamente, conseguir encontrar estas edições com bons descontos (eu comprei tudo a, no máximo, 60% do preço sugerido, em três sites diferentes), aí acho que você pode arriscar. 

São páginas assim, de monstros como Tim Sale, que fazem valer à pena ver a arte sem retoques.

Agora… No meio de tanto clássico, o que diabos Corte das Corujas tá fazendo ali? 

Capullo parece nunca ter saído do Spawn…

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