Primeira leitura de 2019!

Primeiro dia do ano. Uma leve ressaca. Barriga cheia com aquele almoço farto composto pelas sobras da comida das festividades de ano novo. Armo a rede e estendo a mão para a pilha que aguarda leitura. A primeira, por acaso, era Superdeus. Encerrado o primeiro capítulo, parei, tomei um pouco de água e peguei da primeira página novamente. Valia a pena!

O inglês Warren Ellis, nascido em 1968, começou sua carreira de roteirista de quadrinhos em 1990. Entre seus trabalhos, amplo destaque para Transmetropolitan (ao lado do desenhista Darick Robertson, inicialmente saiu pelo selo Helix, depois foi transferida para o selo Vertigo, ambos da DC Comics) e Planetary (com o artista John Cassaday, publicado no pela Wildstorm, hoje um selo da DC Comics). Outros trabalhos que merecem referência são o arco Extremis, no Homem de Ferro, e The Authority (também na Wildstorm).

Bom, antes de mais nada, vamos nos situar dentro da obra do roteirista Warren Ellis. Superdeus é a terceira mini de uma trilogia publicada entre 2007 e 2009 pela editora Avatar Press, sendo as outras as recomendadíssimas Verão Negro e Herói Nenhum, ambas também disponíveis em encadernados nacionais caprichados lançados pela Mythos. Nesta trilogia, Ellis se dedica a – adivinhem! – desconstruir o mito dos super-heróis, dando a cada mini um foco diferente na forma como se poderia encarar tais criaturas, se as mesmas de fato existissem no chamado mundo real.

No mundo de SuperDEUS, super-humanos são a última expressão do complexo de messias. Cientistas conseguem criar messias para descer dos céus e salvar o mundo. Mas ninguém pensou em como eles salvariam o mundo – ou mesmo se iriam querer salvar o mundo.” – Warren Ellis – 

Superdeus talvez seja a que nos traz a visão mais desesperançada de todas. Segundo o mundo aqui construído, a corrida armamentista pós-Segunda Guerra foi um pouco diferente da que conhecemos: todas as potências – e alguns países emergentes (pra dizer o mínimo) – buscaram a chamada “vantagem tática” apostando em ousadas e diferentes formas de chegar ao super-humano. Seria como se várias nações da terra estivessem, de alguma forma, buscando construir o seu Dr. Manhattan.

Morrigan Lugus. Morrigan seria uma alusão à deusa celta Morrigan (ou Mórríghean), que seria uma das três faces da Deusa Tríplice adorada em várias culturas. Já Lugus (ou Lugh) é outra divindade celta que era comumente retratada como se tivesse três cabeças. Como se pode perceber, a triplicidade era considerada importante na antiga religião celta, vista como uma forma de intensificar o poder.

O grande “x” da questão é que, ainda que todos os projetos sejam desenvolvidos em ambientes de ciência avançada e alta tecnologia, o aspecto religioso termina tendo influência decisiva desde a concepção inicial e termina por influenciar as criaturas surgidas.

“No ambiente inóspito ao qual você se refere como planeta habitável, exige-se comportamentos coletivos para sobreviver o suficiente para a procriação. Já que são macacos burros, vocês não tem afinidade natural para o altruísmo coletivo. Por isso, vocês criaram um bombeador genético que leva compostos químicos prazerosos ao cérebro de macaco. Que é ativado por adoração e pavor de antropomorfismo do seu meio-ambiente. Mães-Terra. Deuses celestes. Arbustos que pegam fogo. Pedras de aspecto interessante. Um galho de forma estranha. Vocês não exigem muito.” – Morrigan Lugus, respondendo se os deuses criaram a humanidade ou se foi o contrário –

E é o despertar de uma destas experiências que termina por precipitar as coisas: Krishna, o super-homem indiano, inicia a sua missão de salvar seu país exterminando uma parte da população local, dando assim uma solução imediata para o problema do excesso de habitantes. Alarmado com a situação, o resto do mundo assiste impassível um ataque nuclear em massa do Paquistão à poderosa criatura, que simplesmente volta as ogivas contra quem as enviou, destruindo o país agressor. Isso faz com que as nações – e, em um determinado caso, a “iniciativa privada” – que possuem super-humanos desenvolvidos ou em desenvolvimento resolvam acioná-los – ou pelo menos tentem acelerar o processo, com algumas consequências catastróficas em alguns casos – para que enfrentem o indiano e “salvem o mundo”. E é aí que a porca torce o rabo…

Krishna. O nome e a cor da pele (que os indianos disseram ter sido acidental) já dão a entender o quanto a humanidade buscava criar deuses e não heróis. Também como a divindade hindu, o Krishna criado em laboratório nasce “sem conjunção sexual”.

Como dito, os projetos estavam imbuídos de forte influência messiânica. Mesmo humanos em sua origem, os seres que surgem destas experiências variadas encontram-se de tal forma acima – ou, pelo menos, à parte – dos meros mortais que parecem pouco dispostas a servir a humanidade, salvando-a de si mesma.

Dajjal, um super-humano criado pelo exército norte-americano em uma base no Iraque. Teria o que é chamado de “percepção tática”, podendo enxergar todas as linhas temporais. Ele chega a comentar a própria narração de Simon Redlin, que está ocorrendo em um futuro próximo. Aparentemente, a ideia dos militares era de que Dajjal utilizasse esta estranha habilidade para optar sempre por favorecer um desenvolvimento histórico em que ele não fosse eliminado. No entanto, a criatura – que se define não como insana, mas sim desprovida de sanidade – possuía formas diferentes de interpretar as coisas e tem papel fundamental na história. Al-dajjal, pra quem se interessou, seria o equivalente ao Anticristo no islamismo. Bela escolha de nome, né?

Ellis usa um cientista britânico, com amplo acesso à informações, para narrar os acontecimentos, como se este estivesse conversando com um colega norte-americano que estaria escondido em algum bunker subterrâneo no seu país. Uma velha sacada, mas que sempre dá certo: a história contada de um determinado ponto de vista ganha com observações pessoais do narrador, um homem que vê o mundo à beira do precipício e carrega um grande peso nos próprios ombros.

“Sabe o que me deixou surpreso mesmo, nessa coisa toda? Que os japoneses não tivessem na manga um deus-Jesus robô nuclear gigante da morte.” – Simon Reddin, cientista britânico e narrador –

Eu sou fã do roteirista britânico, que costuma entregar um trabalho consistente e abordar questões um tanto quanto “difíceis” de forma interessante, como fez na sua curta passagem por Hellblazer, o adorado título de John Constantine no selo Vertigo, e, claro, naquela que considero sua obra máxima: Transmetropolitan. Warren Ellis é pra mim o escritor que eu pensei que um dia Grant Morrison seria, mas este se perdeu no próprio ego, optando por fazer roteiros com decupagem confusa para esconder a aridez de boas ideias, da mesma forma que o seu uso de termos complicados procura esconder a pobreza dos seus diálogos.

Jerry Craven, o super-humano norte-americano, uma espécie de versão mega do Homem de Seis Milhões de Dólares (pesquisem no Youtube). Na ativa desde 1974, chega a Índia quase que ao mesmo tempo em que Dajjal.

Os desenhos de Garrie Gastonny (com nanquim de Rhoald Marcellius e cores de Digikore Studios) formam um trabalho correto, competente, mas que sofre com a comparação com o feito por Juan Jose Ryp nas duas minis anteriores. Cheguei a lamentar mesmo que o espanhol – que eu vejo como se Richard Corben se unisse a Geof Darrow, guardadas as devidas proporções – não tenha trazido sua arte detalhista para o desfecho da trilogia…

Uma pequena amostra da arte de Ryp em Verão Negro.

Ler Superdeus foi gratificante para mim porque me fez admirar ainda mais o Superman! Sim, o bom e velho kryptoniano que sobreviveu ao fim do seu planeta fugindo para o nosso, ganhando super-poderes e, inacreditavelmente, optando por servir em vez de ser servido. Minha opinião sobre o Homem de Aço – o que considero autêntico, que vi nos filmes de Richard Donner e nas hqs antes da DC perder o rumo, optando por 52 direções diferentes… todas erradas – pode ser conferido aqui.

Superdeus. Roteiro de Warren Ellis. Desenhos de Garrie Gastonny, com arte-final de Rhoald Marcellius. Editora original: Avatar Press. Editora no Brasil: Mythos. 132 páginas. R$ 41,90.